domingo, 15 de novembro de 2009

Copacabana, calor, e elegância


Jean Paul Sartre & Simone de Beauvoir em Copacabana

Ainda não começamos realmente o verão, mas alguns dias já se tornaram tórridos. A praia, como sempre, é uma opção. Engana-se, porém, quem pensa que, sob o sol, quanto menos roupas trajamos, mais confortavelmente suportamos o calor. Pelo, contrário. A exposição da pele diretamente ao sol apenas acentua a sensação de calor e de mormaço, sem mencionar o fantasma do câncer de pele. Há séculos os beduínos já se deram conta de que a lã é um excelente isolante térmico, protegendo-nos não apenas do frio, mas também do calor. Para isso, porém, é necessário que a malha seja relativamente aberta, para permitir a ventilação e transpiração, diferentemente, aliás das tais “super 100”, “super 150”, etc. que, apesar de leves, não facilitam muito a transpiração.

Terno de Linho em Copacabana

Uma outra opção para os dias quentes é o bom e velho terno de linho. O linho, como se sabe, se amarrota com muita facilidade. Mas isso faz parte da estética das roupas de linho. Lembro-me de ter lido uma vez que havia uma época em que eram bem mais comuns os ternos de linho no Brasil. O amassadinho era considerado tão indispensável que muitos homens, depois de retirá-los da lavanderia, costumavam rolar com seus ternos na cama, apenas para garantir que não teriam a impressão de muito novo, muito engomadinho.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Roupas e sapatos não envelhecem, enobrecem... (II)

Príncipe Michael of Kent

Referi-me em minha postagem anterior a esse aspecto da cultura da elegância clássica masculina: nada pode ter a aparência de novo, como se tivesse acabado de sair de uma embalagem. Havia uma época, inclusive, em que cabia ao mordomo ou outro empregado a tarefa de usar por alguns meses os sapatos ou ternos novos de seu empregador, até que essas peças perdessem a rigidez e inflexibilidade com que saíam do artesão que as produziu. De Cary Grant, diz-se, por exemplo, que ele deixava por uns dias estendida ao sol a fazenda de que se fariam seus ternos, até que adquirissem uma cor menos industrial.


Detalhe da foto acima: poído, sim...

Não deve ser por outra razão que o Príncipe Michael of Kent não apenas não experimenta qualquer constrangimento em circular publicamente com um jaquetão - em tudo mais impecável - já com a parte frontal se desfazendo em elegantes esfarrapos, pelo contrário disso ele deve com certeza se orgulhar.

sábado, 19 de setembro de 2009

Roupas e sapatos não envelhecem, enobrecem...

Príncipe Charles: mesmos sapatos por décadas a fio

Engana-se quem pensa que vestir-se bem consiste em renovar a cada estação todo um guarda-roupa. Muitos homens acabam se desfazendo rapidamente de sapatos, camisas, ou ternos simplesmente porque essas peças foram compradas ao sabor da moda, deixando de ter a atratividade que tinham quando foram adquiridas. Ou simplesmente porque elas não duram muito tempo, dada a má qualidade do material de que são construídas, ou a precariedade da mão de obra ou processo industrial que as produziram. No entanto, assim como um bom vinho, uma escultura em bronze, ou uma tela a óleo, é apenas com o passar dos anos que roupas e sapatos realmente de qualidade adquirem o caráter próprio que lhes confere individualidade e dignidade.


Sapatos com mais de quatro décadas

Príncipe Charles, por exemplo, é conhecido não apenas pela elegância e sobriedade com que se veste, mas também por usar, por décadas a fio, os mesmos ternos, chapéus, sobretudos, e sapatos evidentemente, todos feitos sob medida. A cultura da elegância clássica masculina não se confunde com a cultura de consumo. Muito pelo contrário, é dela inteiramente adversa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A lapela parisiense

casa Marc Guyot

Referi-me já faz algum tempo à diferença entre a lapela ascendente e a lapela descendente. Mas há um tipo de lapela, pouco comum na verdade, que segue uma espécie de via intermediária. Há alguma discussão sobre sua verdadeira origem e, portanto, sobre como ela deveria se chamar. Alguns afirmam que se trata de uma criação da casa britânica E. Tautz, posteriormente incorporada à Norton & Sons - por essa razão, esse tipo de lapela deveria se chamar “Tauz lapela”. Há quem afirme, por outro lado, que esse tipo de lapela é um produto da casa austríaca Knize, devendo portanto ser denominada “Knize lapel”. Mas talvez a designação mais comum seja simplesmente “lapela parisiense” ou “le cran parisien”, popularizada pela casa Camps De Luca, e ainda hoje em voga na casa Marc Guyot.


Gay Talese em Paraty / julho de 2009

Qualquer que seja sua origem, ou designação mais adequada, a “lapela parisiense” tem como um de seus mais conhecidos adeptos o escritor americano Gay Talese, que esteve recentemente no Brasil. Talese, aliás, é filho de alfaiate. Ele conta em sua biografia e em algumas entrevistas que lamenta ver o gradual desaparecimento da arte da alfaiataria masculina.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Alfaiates, uni-vos!

Alfaiataria Raunier, São Paulo / 1914

Quantas casas no Brasil ainda ostentam letreiros como o da foto acima? Trata-se da antiga fachada da Alfaiataria Raunier, na Rua 15 de Novembro, n. 39, em foto publicada pela primeira vez em 1914, e reproduzida mais recentemente no livro A cidade-Exposição.

O ofício do alfaiate vai se extinguindo – e nenhuma organização internacional para preservação da individualidade e bom gosto parece erguer a bandeira dessa causa. Os profissionais que ainda não viram seus estabelecimentos transformados em loja de computador, atacadão de produtos de limpeza, ou qualquer outro ofício menos nobre, vivem da fidelidade de clientes de longa data. Pesquisar no google sobre o tema nos conduz quando muito a listas telefônicas.

Exorto possíveis leitores desta mensagem a divulgarem aqui endereços e contatos de alfaiates espalhados pelo Brasil e com os quais tenham tido a
sublime experiência de ver se formar gradualmente um terno ou paletó inteiramente feito sob medida.

domingo, 14 de junho de 2009

Paletó com uma entrada central



Um paletó pode ter dois tipos de entradas, que são formadas como uma espécie de rasgo vertical: uma entrada central, nas costas; ou duas entradas, nas laterais. Alternativamente, alguns paletós são construídos sem esse tipo de acessório. Paletós com uma única entrada central são mais uma herança da cultura eqüestre britânica, pois a entrada central proporciona ao cavaleiro mais conforto ao montar. Além disso, ela imepede que o paletó se amasse demasiadamente, mesmo quando não se está sentado sobre a sela do cavalo.



Paletós com uma única entrada central são muito comuns nos Estados Unidos, e quase sempre são fabricados em escala industrial. Isso ocorre porque é mais fácil e barato produzir um paletó com uma única entrada do que com duas. Uma desvantagem da entrada central é que ela tende a se abrir ao colocarmos a mão nos bolsos da calça, pondo então à mostra a região de sua anatomia que deveria permanecer oculda sob o paletó. Esse tipo de embaraço é contornado quando o paletó dispõe de duas entradas laterais, em lugar de uma única entrada central.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Estilo e individualidade


É uma espécie de paradoxo que, em nossa época, calças rasgadas e mangas arregaçadas pareçam normalidade, mas um simples paletó esportivo em um dia de sol possa despertar a impressão de excesso de formalidade. É preciso resistir à banalização geral que, hoje, assola em todos os âmbitos de nossa existência, inclusive nessa dimensão de nossas vidas que se exprime com as roupas que vestimos.



Um modo de conferirmos autenticidade a esse aspecto de nossa existência é buscarmos os serviços de um alfaiate, ou de um camiseiro. Uma legião de jovens cresce hoje em dia sob as instruções de personal trainers, consultores financeiros, e gurus de toda sorte. Mas quantos buscam ainda profissionais como alfaiates ou camiseiros? Um terno confeccionado por um bom alfaiate é, de modo geral, bem mais caro que um terno comprado pronto. Mas, no que se refere a camisas, você pode até pagar menos por uma de qualidade, feita sob medida, do que pagaria para fazer gratuitamente propaganda de uma marca que, na verdade, não lhe cai bem.

sábado, 30 de maio de 2009

Bouttoniere: livro de Umberto Angeloni

Cary Grant na capa do livro de Umberto Angeloni

Não se trata de nenhuma obsessão especial pela bouttoniere, mas gostaria de retornar a esse tema, sobre o qual já escrevi recentemente. A razão para isso é que recebi há poucos dias um livro esgotadíssimo: The Boutonniere: Style in One's Lapel, de Umberto Angeloni. O livro de Angeloni conta com uma excelente seleção de fotos e ilustrações, antigas e recentes.

É incrível que se possa escrever um livro inteiro sobre um buraco na lapela do paletó. Isso não seria possível, é claro, se ao longo de mais de um século homens como Oscar Wilde, Santos Dumont, Luciano Pavarotti, ou Nelson Mandela não tivessem utilizado a boutonniere para exprimir individualidade e estilo com muita elegância.


A contra capa do livro de Angeloni é especialmente interessante, pois mostra nitidamente a alça que prende a flor por trás da lapela, a que me referi em uma outra postagem. Esse detalhe, evidentemente, não se pode esperar encontrar em um paletó comprado pronto. - Trata-se de uma prerrogativa do paletó sob medida.

Ao clicar sobre a foto acima e contemplar a imagem ampliada, você poderá perceber com clareza que o caseamento da
boutonniere é um pouco irregular. Isso é um sinal de que ela não surgiu na linha de montagem de uma confecção industrial, mas nas mão de algum habilidoso artesão.


Santos Dumont com flor na lapela
O comentário espirituoso de Angeloni ao elegante pioneiro da aviação: “O engenheiro e aeronauta brasileiro Alberto Santos Dumont posa orgulhosamente com uma de suas primeiras aeronaves para um fotógrafo. A história não nos conta nem se ele usava flores na boutonniere durante seus vôos, nem como elas se comportavam sob o vento.”

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sapatos bicolores: "spectator" ou "correspondent"

Faz alguns dias referi-me aos sapatos bicolores, mais conhecidos em inglês como spectator ou correspondent. Trata-se de um velho clássico, fabricado tanto na combinação preto e branco, como marrom e branco. Na década de vinte e trinta spectators eram muito usados por músicos de jazz, evocando o clima de harmonia que vigorava entre negros e brancos nas bandas da época.




Spectators são sapatos para serem usados durante o dia, preferencialmente no verão, pois estão ainda hoje associados às práticas esportivas que os tornaram populares, sobretudo o golfe. Um inconveniente que esse tipo de sapato oferece é o polimento, pois é quase impossível aplicar graxa sobre a superfície de uma cor, sem que ela atinja também a superfície da outra cor. Por essa razão, a graxa mais recomendada para a limpeza e polimento de sapatos bicolores é a graxa incolor.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Alan Flusser: tributo à elegância do corpo diplomático brasileiro


Os últimos anos têm presenciado a publicação de vários novos livros sobre estilo e elegância clássica masculina. Esses livros variam bastante em qualidade, e poucos chegam ao mercado editorial brasileiro, o que é realmente uma pena. Se você se interessa por elegância e estilo, e gostaria de uma boa dica de bibliografia sobre o tema, eu recomendaria com veemência um livro em especial: Dressing the Man: Mastering the Art of Permanent Fashion
, do americano Alan Flusser.

Alan Flusser

Na verdade, Flusser é autor de outros títulos sobre elegância e estilo, mas
Dressing the Man se destaca sobretudo pelo texto bem escrito, e pela cuidadosa seleção de fotos e ilustrações dos anos trinta e quarenta. Para o leitor brasileiro, há uma passagem do livro digna de atenção. Flusser afirma o seguinte: "Back in the thirties, no group of swells was alleged to exude more collective swank than the Brazilian diplomatic corps". (Minha tradução: "Lá nos anos trinta nenhum grupo de homens alinhados ostentava mais elegância coletiva do que os membros do corpo diplomático brasileiro").

Atenção, Itamaraty, reviver e preservar a tradição da elegância clássica masculina entre brasileiros de bom gosto é também sua nobre missão!