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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Terno de Linho (IV)

Vargas e Roosevelt em quadro de R. Neilson / Museu da República, Rio de Janeiro


Seria talvez possível reescrever a história do pensamento político a partir das roupas e uniformes dos homens que governaram Estados, fizeram guerras, amargaram de modo trágico derrotas pessoais, ou festejaram entusiasmadamente a glória da vitória. A linguagem das roupas sempre se mostrou uma poderosa aliada tanto de ditadores quanto de democratas, seja para exprimir o peso da autoridade, ou para sugerir a informalidade de quem pretende ser visto como um autêntico homem do povo.

Isso não foi diferente durante a Segunda Guerra Mundial, quando o nordeste brasileiro serviu de quintal para tropas americanas. Uma tela de Raymond Neilson retrata os presidentes Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt inspecionando uma base aérea americana, instalada em Natal. À exceção do motorista, cabisbaixo em primeiro plano, os demais, tanto civis quanto militares, se vestem de branco, como se fossem verdadeiros missionários paz. Vargas e Roosevelt, além disso, parecem inteiramente adaptados, em seus ternos de linho e chapéus tipo Panamá, ao calor da região.

- Qualquer que tenha sido o legado político de Vargas e Roosevelt, há pelo menos que se reconhecer a elegância despretensiosa desses dois líderes políticos.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Terno de Linho (III)

De férias ou a trabalho nas Bahamas

O Duque de Windsor costumava usar esse terno de linho quando foi Governador das Bahamas, na década de quarenta. Trata-se, como se pode ver, de um modelo tipo "jaquetão", com duas carreiras de dois botões. Jaquetões, em ternos de lã, costumam ter três botões em cada carreira de botão, mas em versões mais informais é frequente a utilização de dois botões apenas.

O exemplar da foto acima foi recentemente leiloado nos EUA. Contudo, leitores atentos devem ter reparado uma espécie de anomalia: o paletó segue um padrão de abotoamento feminino, pois a parte direita se sobrepõe à esquerda. A foto certamente não está invertida, pois o bolso superior está onde deveria estar, ou seja: do lado esquerdo de quem veste a roupa. O que deve ter ocorrido aqui é que o paletó foi colocado em uma armação, e abotoado para ser fotografado em seguida. A pessoa que o abotou, certamente destra, deve ter inconscientemente usado a mão direita para segurar o botão, e a esquerda para segurar o lado do caseado, por onde passa o botão. É essa inclusive uma das razões para que o padrão de abotoamento feminino seja diferente do masculino, pois em priscas eras cabia à dama de companhia, geralmente destra, abotoar as roupas de sua patroa.


- Em outras postagens, escrevi mais sobre a história do abotoamento de paletós masculinos.

domingo, 10 de julho de 2011

Terno de Linho (II)

O paletó de de linho é frequentemente feito sem forro, o que o torna ainda mais propício para ser utilizado durante o verão; mas, por outro lado, sem o forro ele fica também mais vulnerável às rugas. O terno de linho, a despeito de sua informalidade, e diferentemente do terno da foto acima, também pode ter a forma de um "jaquetão", com duas carreiras de botões. Repare ainda que os bolsos do paletó de linho são quase sempre sobrepostos, ainda que isso não seja uma regra muito rígida. Isso significa que os bolsos não são internos e não têm uma aba de tecido para fechá-los.

domingo, 3 de julho de 2011

Oswald de Andrade: Terno de Linho

Oswald Andrade
A visão de um terno de linho, nas últimas décadas, foi se tornando cada vez mais rara. Isso é realmente uma pena, pois o linho é bem mais adequado ao nosso clima do que as abomináveis fibras sintéticas que povoam boa parte dos ternos que circulam em nosso país. Até mais ou menos a década de cinquenta, do homem comum ao presidente, do general de folga ao intelectual, como Oswald de Andrade na foto acima, todos tinham pelo menos um terno de linho no armário.


idem por (c) Leonardo / Jornal Estado de São Paulo

Acresce ainda que o linho, diferentemente do algodão ou da lã, tem uma ascendência tão longa quanto nobre, pois o linho era o tecido dos sacerdotes egípcios, e compunha também parte da indumentária dos imperadores romanos. O linho, de fato, amassa rapidamente, mas é preciso apreciar suas rugas, não como marcas da negligência, mas como resultado da elegância despreocupada de quem tem sobre os ombros mais de dois mil anos de tradição.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Seersucker suit: o terno de anarruga

Terno de anarruga

O calor pode ter recrudescido um pouco neste final de fevereiro, mas a questão sobre as roupas mais adequadas para serem utilizadas durante os dias mais quentes do ano, sobretudo entre os homens que costumam vestir ternos por razões profissionais, permanece. Durante o verão, além do paletó sem forro, como sugeri em uma postagem anterior, há ainda uma outra alternativa ao terno convencional de lã, a saber: o terno de anarruga. Em inglês ele é conhecido como seersucker suit.


A superfície ondulada promove a transpiração

Anarruga é um tipo de tecido de algodão que apresenta uma textura enrugada. São as as ondulações sobre sua superfície que tornam o tecido de anarruga especialmente apropriado aos dias mais quentes e úmidos do ano, pois elas permitem a circulação de ar sob a roupa, promovendo assim a transpiração e amenizando a sensação de calor.


Senadores americanos posando para o seersucker day / junho 2006

O seersucker suit é, na verdade, um ícone do guarda roupa masculino americano. Assim como os advogados do Rio de Janeiro, os congressistas americanos às vezes sofrem durante o verão. No entanto, ao invés de pleitearem o uso facultativo do terno durante esse período, eles propuseram há alguns anos uma solução a meu ver bem mais elegante: a instituição do seersucker day. Na última quinta-feira de junho, que coincide com o início do verão no hemisfério norte, os senadores são encorajados a vestirem o tradicional terno de anarruga.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O "beau monde" carioca: 1920 - 1945

Livro de Alberto A. Cohen e Samuel Gorberg

A preservação da memória visual da cidade do Rio de Janeiro conta desde o início do ano com mais um título nas livrarias. Trata-se de "A Elite Carioca e os Fatos Mundanos no Rio de Janeiro: 1920 - 1945", organizado por Alberto A. Cohen e Samuel Gorberg (editora AACohen). O livro conta com um bom texto, e traz uma ampla coleção de fotos do dia a dia e dos eventos que animavam o beau monde carioca no período entre guerras. Por essa razão, o livro acaba sendo também um registro valioso do que as pessoas elegantes no Rio de Janeiro vestiam naquela época.


Hipódromo / 1934

Na maior parte das fotos se vêem homens, se não de terno e gravata, pelo menos vestindo um paletó, mesmo em situações prosaicas do cotidiano. Com o verão atualmente marcando temperaturas recordes, eu me pergunto se, naquela época, toda uma cidade poderia estar equivocada em questões relativas a roupas adequadas para o verão. Havia, é verdade, casos talvez bizarros, como o das senhoras vestidas de preto, com estola de pele sobre os ombros em um dia ensolarado no Hipódromo Brasileiro em 1934 (p. 73); ou o dos cientistas brasileiros trajando pesadas roupas pretas em 1925 a fim de receberem Albert Einstein, confortavelmente vestindo terno branco e chapéu panamá (p. 31, ver foto). Contudo, de modo geral, a impressão que se tem é que as pessoas se vestiam com bom senso, usando chapéus para se proteger do sol, e ternos claros, certamente de linho, como na foto acima, para lidarem com o calor sem perder a elegância. - É preciso admitir, no entanto, que em épocas diferentes as pessoas podem ter idéias
bem diferentes acerca do que conta como bom senso, preferindo, por exemplo, em nome do conforto, se besuntar de protetor solar e tostar a pele sob o sol de verão...

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Elegantia juris

Revista Esquire

Devido à onda de calor que assola a cidade, a OAB do Rio de Janeiro decidiu desobrigar advogados do uso de terno e gravata nas dependências do Poder Judiciário até o final do verão, como informa o site da entidade sob a rubrica “Liberado uso facultativo do terno”. Se as roupas que vestimos são uma expressão de nossa personalidade, então nada mais legítimo do que garantir o direito constitucional de liberdade de expressão àqueles que têm justamente como tarefa nos defender nos tribunais. O problema, no entanto, é que em meio a prazos, petições, processos, e audiências a maior parte dos juristas, ao escolherem suas roupas, parece jamais ter buscado inspiração nas Quatro Estações de Vivaldi. Eles conduzem o ano sob a melodia monótona de um mesmo tipo de terno, ignorando que estações diferentes exigem acordes e ritmos diferentes. Uma opção menos dissonante com o calor das últimas semanas são os paletós sem forro, confeccionados em tecidos com malha de textura aberta.


Paletó sem forro.
Foto publicada com autorização do proprietário.
Fonte: thelondonlounge.net

Diferentemente das fibras sintéticas, e das badaladas “super 100's”, malhas abertas permitem a ventilação e facilitam a transpiração. Quando utilizadas na composição de um paletó sem forro, o resultado é uma roupa extremamente leve e inteiramente adequada ao nosso clima, como ilustram as fotos acima. É desnecessário mencionar que um paletó como esse não se obtém comprado pronto. Sua confecção exige a competência de um bom alfaiate; na verdade, sua confecção pode até mesmo ser mais trabalhosa do que a de um paletó convencional, pois os pontos e linhas, que geralmente se escondem por trás do forro, devem ser cuidadosamente acabados para não se tornarem visíveis quando o paletó está aberto. Repare que apenas as mangas são forradas e que o tecido, de tão poroso, permite-nos até mesmo ver a silhueta dos objetos atrás dele. (Clique na foto para ampliá-la). As roupas que usamos não devem ser causa de desconforto, mesmo sob o clima canicular dos trópicos. Elas devem nos aquecer no inverno, e nos proteger do calor durante o verão.

Agradeço ao proprietário das fotos acima pela gentil autorização para publicação das imagens, e pelas explicações sobre a confecção de seu paletó.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Verão: malhas abertas, tecidos leves... e claros

Albert Einstein / Careta, 16.05.1925

Referi-me nas postagens anteriores a duas características que tornam um tecido especialmente adequado para a confecção de ternos ou paletós de verão: o peso e o tipo de malha. Contudo, não é preciso ser um gênio da ciência para reconhecer uma terceira propriedade especialmente importante: a cor do tecido. Cores claras tendem a refletir a luz, absorvendo portanto menos calor. Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, em maio de 1925, Albert Einstein, diferentemente de seus colegas locais, já tinha se dado conta disso. Na foto acima, ele aparece elegantemente adaptado ao nosso clima. - Quanto às sandálias que usava, complementando o terno branco e o chapéu Panamá, essas sim parecem uma prerrogativa de cientistas excêntricos.


Mark Twain / Vanity Fair, 13 de março de 1908, por Spy

Algumas figuras foram tão obcecadas por ternos brancos que não restringiram seu uso aos dias mais quentes do ano. O escritor americano Mark Twain, por exemplo, era reconhecido como excêntrico, pelo menos em questões de vestuário, por ter estendido o uso do terno branco até mesmo aos dias mais frios do inverno. Em sua autobiografia ele conta o seguinte: "Eu sou considerado excêntrico porque uso roupas brancas tanto no inverno quanto no verão. Eu sou excêntrico, então, porque prefiro estar limpo em questões de vestimenta - limpo em um mundo sujo; absolutamente o único ser humano trajando roupas limpas em toda a Cristandade ao norte dos Trópicos. Isso é o que sou."

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Tecidos leves, mas com malhas abertas


circulação de ar e eliminação de suor sob a roupa

A maioria dos jornais noticiou este como o mês de fevereiro mais quente dos últimos dez anos no Rio de Janeiro. Ao vestir um paletó, a melhor idéia, evidentemente, é optar por tecidos leves. Mas é isso tudo que realmente importa? Claro que não. Imagine se fosse possível confeccionar um terno com uma fina película de plástico. - Ele seria bastante leve, com toda certeza, mas, ainda assim, muito mais quente do que um pesado casaco de lã. A razão para isso é óbvia: trocamos calor com o ambiente através da transpiração; se o suor transpirado permanecer sob a roupa, a sensação de calor será agravada. Para que a transpiração possa ocorrer sem acúmulo de suor sobre a pele é necessário que a roupa permita a circulação de ar. E isso somente é possível se o tecido, assim como nossa pele, tiver a porosidade necessária para garantir a evaporação do suor.


tecido com malha aberta

O problema, no entanto, é que a maior parte dos sofisticados - e caros - tecidos empregues na confecção de ternos hoje em dia é, de fato, bastante leve, mas a sua malha, por outro lado, é muito fechada, dificultando a evaporação do suor. As tais "super" 100's, 200's, etc., são bastante leves, mas não permitem uma boa ventilação. Tenha em mente, portanto, que não é apenas o peso que torna um tecido mais ou menos adequado ao verão, mas sobretudo o tipo de malha empregue em sua confecção.


domingo, 15 de novembro de 2009

Copacabana, calor, e elegância


Jean Paul Sartre & Simone de Beauvoir em Copacabana

Ainda não começamos realmente o verão, mas alguns dias já se tornaram tórridos. A praia, como sempre, é uma opção. Engana-se, porém, quem pensa que, sob o sol, quanto menos roupas trajamos, mais confortavelmente suportamos o calor. Pelo, contrário. A exposição da pele diretamente ao sol apenas acentua a sensação de calor e de mormaço, sem mencionar o fantasma do câncer de pele. Há séculos os beduínos já se deram conta de que a lã é um excelente isolante térmico, protegendo-nos não apenas do frio, mas também do calor. Para isso, porém, é necessário que a malha seja relativamente aberta, para permitir a ventilação e transpiração, diferentemente, aliás das tais “super 100”, “super 150”, etc. que, apesar de leves, não facilitam muito a transpiração.

Terno de Linho em Copacabana

Uma outra opção para os dias quentes é o bom e velho terno de linho. O linho, como se sabe, se amarrota com muita facilidade. Mas isso faz parte da estética das roupas de linho. Lembro-me de ter lido uma vez que havia uma época em que eram bem mais comuns os ternos de linho no Brasil. O amassadinho era considerado tão indispensável que muitos homens, depois de retirá-los da lavanderia, costumavam rolar com seus ternos na cama, apenas para garantir que não teriam a impressão de muito novo, muito engomadinho.