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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Terno de Linho (III)

De férias ou a trabalho nas Bahamas

O Duque de Windsor costumava usar esse terno de linho quando foi Governador das Bahamas, na década de quarenta. Trata-se, como se pode ver, de um modelo tipo "jaquetão", com duas carreiras de dois botões. Jaquetões, em ternos de lã, costumam ter três botões em cada carreira de botão, mas em versões mais informais é frequente a utilização de dois botões apenas.

O exemplar da foto acima foi recentemente leiloado nos EUA. Contudo, leitores atentos devem ter reparado uma espécie de anomalia: o paletó segue um padrão de abotoamento feminino, pois a parte direita se sobrepõe à esquerda. A foto certamente não está invertida, pois o bolso superior está onde deveria estar, ou seja: do lado esquerdo de quem veste a roupa. O que deve ter ocorrido aqui é que o paletó foi colocado em uma armação, e abotoado para ser fotografado em seguida. A pessoa que o abotou, certamente destra, deve ter inconscientemente usado a mão direita para segurar o botão, e a esquerda para segurar o lado do caseado, por onde passa o botão. É essa inclusive uma das razões para que o padrão de abotoamento feminino seja diferente do masculino, pois em priscas eras cabia à dama de companhia, geralmente destra, abotoar as roupas de sua patroa.


- Em outras postagens, escrevi mais sobre a história do abotoamento de paletós masculinos.

sábado, 20 de março de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (V)

Judeus com o tradicional "rekel"

Eu já havia dado como encerrada a série de postagens sobre abotoamento de paletós masculinos. Mas o tema é mais vasto do que se poderia supor à primeira vista. A idéia básica é que, na hora de abotoar, o lado esquerdo de um paletó masculino se sobrepõe ao lado direito. E isso vale também para sobretudos, túnicas, camisas sociais, etc. Algumas imagens apenas aparentemente sugerem uma exceção a essa regra. Isso ocorre quando elas são publicadas de modo invertido por engano, ou quando a imagem em questão é um auto-retrato. Mas há uma verdadeira exceção à regra: o Rekel - um tipo de jaquetão longo usado por ortodoxos judeus. O abotoamento do Rekel, na verdade, segue um padrão tradicionalmente considerado próprio para roupas femininas, ou seja: direito sobre esquerdo. Mas isso está inteiramente de acordo com as regras que tratam do uso de trajes masculinos na cultura judaica.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (IV)


Van Gogh / auto-retrato / 1889

Van Gogh / auto-retrato / 1889 também

Há poucos dias, na postagem sobre fotos antigas, referi-me à observação do abotoamento dos paletós masculinos como um critério para sabermos se uma imagem não teria sido equivocadamente publicada de modo invertido. Há pelo menos uma ocasião, no entanto, em que uma imagem pode aparecer, sim, de modo invertido, sem que isso resulte de um erro de publicação, a saber: quando a imagem em questão é um auto-retrato.


Detalhe da imagem anterior

Nas pinturas de Van Gogh acima, tem-se à primeira vista a impressão de que as imagens foram invertidas por engano, ou que o famoso pintor, na pobreza, tinha de recorrer a roupas femininas por falta de opção, pois os botões aparecem do lado direito, com a parte direita da roupa se sobrepondo à parte esquerda. Mas é claro que essa impressão é ilusória. Um auto-retrato é feito diante do espelho, por essa razão a imagem retratada sobre a tela aparece literalmente "espelhada", isto é invertida. As roupas de Van Gogh, apesar de rotas, eram como deviam ser - elas seguiam o abotoamento tradicional dos paletós masculinos.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (III)

Marlene Dietrich


Famosa sósia de Marlene Dietrich

O modo de abotoamento do paletó – lado esquerdo sobre direito, ou lado direito sobre esquerdo – é tão distintivo da diferença entre paletós masculinos e femininos que algumas mulheres preferiram não negligenciar esse detalhe, mesmo quando vestindo roupas em tudo mais inteiramente masculinas.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (II)


esq. Errol Flynn, The Sea Hawk (1940)
dir. John Neville, The Adventures of Baron Munchausen (1988)

Não importa se você veste uma casaca de pirata, uma camisa social, um sobretudo, um colete, ou paletó, a forma de abotoamento permanece a mesma: o lado esquerdo se sobrepõe ao lado direito, onde se encontram os botões. Com as roupas femininas dá-se justamente o inverso. Segundo a lenda, a origem do abotoamento de roupas masculinas se deve ao hábito de carregar espadas do lado esquerdo. Como a maior parte dos homens são destros, a espada era carregada do lado esquerdo para que se pudesse retirá-la rapidamente com a mão direita. Se a casaca de um espadachim fosse abotoada como se abotoam hoje em dia roupas femininas, havia então o risco de que o cabo de sua espada ficasse preso em sua roupa quando a lâmina fosse desembainhada às pressas. A falta de atenção para esse detalhe de sua roupa, como se pode imaginar, poderia muito bem lhe custar a própria vida. Ocorre, porém, que há séculos os homens não andam mais por aí carregando espadas. Se isso é assim, então por que o modo de abotoamento dos paletós masculinos não variou com o tempo e ao sabor da moda, da mesma forma que outras características das roupas que vestimos?


Humphrey Bogart no filme Kid Galahad (1937)

A razão para a permanência do modo de abotoamento de roupas masculinas, a meu ver, é que os séculos passaram, mas a maior parte dos homens continua destra e precavida. Os homens deixaram de carregar espadas porque passaram a portar outras armas – não menos letais. Se alguém tiver de esconder uma pistola sob o paletó, será mais fácil sacá-la rapidamente, sem ter de perder tempo com botões, se a parte esquerda do paletó recobrir a parte direita. Bem, é verdade, por outro lado, que o número de pessoas circulando pela cidade com uma arma escondida sob o paletó deve ter diminuído com o tempo. Mas as pessoas continuaram indo ao cinema, e cenas como a de Humphrey Bogart na foto acima, presentes em tantos outros filmes, devem ter sido retidas inconscientemente na memória de muitos homens como uma indicação de que o abotoamento do paletó masculino não pode ser de outro modo - pelo menos não sem que corramos risco de vida. O abotoamento tradicional, dessa forma, funciona como uma espécie de alusão inconsciente à idéia de poder e masculinidade evocada pelo uso de espadas e pistolas.

(Este artigo foi originalmente publicado na revista Tendencia, setembro de 2009).

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (I)

A reviravolta de Getúlio Vargas

Um detalhe interessante da foto em preto e branco da postagem anterior é que ela está invertida, como se vista por um espelho. A posição correta da foto de Getúlio Vargas deveria ser como ela aparece acima.

Muitas fotos antigas foram ampliadas ou publicadas em modo invertido por engano. Quando uma foto apresenta, por exemplo, o letreiro de uma loja, é fácil perceber imediatamente se ela está ou não invertida. Uma outra maneira de se reconhecer se está "espelhada" é olhar para a posição do abotoamento dos paletós masculinos. Invariavelmente, a parte frontal esquerda de um paletó ou sobretudo masculinos se abotoa sobre a parte frontal direita. Essa ainda é uma das marcas distintivas da diferença entre uma camisa masculina e uma feminina. Mas na foto da postagem anterior tem-se a impressão de que Getúlio Vargas estaria usando uma roupa feminina, ou que teria se enganado ao abotoar seu jaquetão, o que é bem pouco provável. Além disso, ao examinar fotos antigas, convém lembrar que o bolso superior do paletó é sempre colocado do lado esquerdo. Quando a foto está invertida, ele aparece do lado direito de quem veste o paletó.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Getúlio Vargas: Sapato bicolor e chapéu de palha

Getúlio Vargas

Repare que
Getúlio Vargas, o homem no centro da foto na postagem anterior, está calçando um sapato tipo spectator ou correspondent, sobre o qual falei em uma outra postagem. Digno de nota é também seu chapéu de palha, mais conhecido em português como palheta. O palheta é um clássico entre os chapéus para o verão. Mais rígido do que o chapéu Panamá, o palheta é um tradicional acessório dos gondoliers que cruzam os canais de Veneza. Ele é muito popular também entre açogueiros mais tradicionais da Inglaterra e da Alemanha. Em inglês ele se chama boater e, em francês, esse simpático chapéu de palha é conhecido como "matelot" ou "canotier".


Santos Dumont 1900 / foto de Pirou


Jô Soares pronto para competição de remo


O palheta faz também parte do traje recomendado para os espectadores da tradicional regata de Henley, que ocorre todos os anos no início de julho, ao longo do Tâmisa na Inglaterra. Parte do charme do palheta é a sua indiferença a distinções de classe - do açogueiro ao aristocrata, do marinheiro ao presidente, do aviador ao apresentador de televisão, muitos homens aderiram ao ar de elegância casual evocado por esse simpático chapéu de palha.