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terça-feira, 26 de outubro de 2010

"Filosofia de um par de botas"

Van Gogh / 1887
Olhando casualmente para as botas, entrei a considerar as vicissitudes humanas, e a conjeturar qual teria sido a vida daquele produto social. Eis senão quando, ouço um rumor de vozes surdas; em seguida, ouvi sílabas, palavras, frases, períodos; e não havendo ninguém, imaginei que era eu, que eu era ventríloquo; e já podem ver se fiquei consternado. Mas não, não era eu; eram as botas que falavam entre si, suspiravam e riam, mostrando em vez de dentes, umas pontas de tachas enferrujadas. Prestei o ouvido; eis o que diziam as botas:


Van Gogh / 1885

BOTA ESQUERDA.- Ora, pois, mana, respiremos e filosofemos um pouco.

BOTA DIREITA.- Um pouco? Todo o resto da nossa vida, que não há de ser muito grande; mas enfim, algum descanso nos trouxe a velhice. Que destino! Uma praia! Lembras-te do tempo em que brilhávamos na vidraça da Rua do Ouvidor?

BOTA ESQUERDA.- Se me lembro! Quero até crer que éramos as mais bonitas de todas. Ao menos na elegância...

BOTA DIREITA.- Na elegância, ninguém nos vencia.

BOTA ESQUERDA.- Pois olha que havia muitas outras, e presumidas, sem contar aquelas botinas cor de chocolate... aquele par...

BOTA DIREITA.- O dos botões de madrepérola?

BOTA ESQUERDA.- Esse.

BOTA DIREITA.- O daquela viúva?

BOTA ESQUERDA.- O da viúva.

BOTA DIREITA.- Que tempo! Éramos novas, bonitas, asseadas; de quando em quando, uma passadela de pano de linho, que era uma consolação. No mais, plena ociosidade. Bom tempo, mana, bom tempo! Mas, bem dizem os homens: não há bem que dure, nem mal que se não acabe.
(...)


(Machado de Assis: "Filosofia de um par de botas", publicado originalmente em O Cruzeiro, 23 de abril de 1878).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Um botim sem misericórdia nem graxa"

Van Gogh / telas de década de 80 do século 19

Van Gogh pintou várias quadros retratando sapatos “sem misericórdia nem graxa”. Essa expressão aparece em uma das mais conhecidas obras de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicada em 1881. Não é signficativo, aliás, que as telas de Van Gogh tenham aparecido na mesma época em que Machado de Assis escrevia seu romance? A elegância por vezes se encontra onde menos a procuramos, e pode mesmo consistir na descrição do que mais dela se afasta. Essa passagem de Memórias Póstumas ilustra o que digo:

“Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia; o chapéu era contemporâneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes, — ou, literalmente, os ossos da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho; o pêlo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos botões restavam três. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, enquanto as bainhas eram roídas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho de oito dias. Creio que trazia também colete, um colete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.”

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (IV)


Van Gogh / auto-retrato / 1889

Van Gogh / auto-retrato / 1889 também

Há poucos dias, na postagem sobre fotos antigas, referi-me à observação do abotoamento dos paletós masculinos como um critério para sabermos se uma imagem não teria sido equivocadamente publicada de modo invertido. Há pelo menos uma ocasião, no entanto, em que uma imagem pode aparecer, sim, de modo invertido, sem que isso resulte de um erro de publicação, a saber: quando a imagem em questão é um auto-retrato.


Detalhe da imagem anterior

Nas pinturas de Van Gogh acima, tem-se à primeira vista a impressão de que as imagens foram invertidas por engano, ou que o famoso pintor, na pobreza, tinha de recorrer a roupas femininas por falta de opção, pois os botões aparecem do lado direito, com a parte direita da roupa se sobrepondo à parte esquerda. Mas é claro que essa impressão é ilusória. Um auto-retrato é feito diante do espelho, por essa razão a imagem retratada sobre a tela aparece literalmente "espelhada", isto é invertida. As roupas de Van Gogh, apesar de rotas, eram como deviam ser - elas seguiam o abotoamento tradicional dos paletós masculinos.