quinta-feira, 14 de julho de 2011
Falando com os botões
De Machado de Assis, Quincas Borba, início do capítulo CXLII:
“A expressão: ‘Conversar com os seus botões’, parecendo simples metáfora, é frase de sentido real e direto. Os botões operam sincronicamente conosco; formam uma espécie de senado, cômodo e barato, que vota sempre as nossas moções.”
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Machado de Assis: "Gostava de ver-se bem..."
"Gostava de ver-se bem, não só para retificar uma coisa ou outra, mas para contemplar a própria figura. Afinal começou a vestir-se, e não foi pequeno trabalho, porque era meticuloso em escolher meias. Mal tirava umas, preferia outras; e já estas lhe não serviam, ia a outras, tornava às primeiras, comparava-as, deixava-as, trocava-as; afinal, escolheu um par cor de canela, e calçou-as; continuou a vestir-se. Tirou camisa, meteu-lhe os botões e enfiou-a; fechou bem o colarinho e o peito, e só então foi à escolha das gravatas, tarefa mais demorada que a das meias."
(...)
"Foi às gravatas e escolheu uma, depois de pegar, deixar, tornar a pegar e a deixar umas dez ou onze. Adotou uma de seda, cor das meias, e deu o laço. Reviu-se então longamente no espelho, e foi às botas, que eram de verniz e novas. Já lhes tinha passado um pano; era só calçá-las. Antes de as calçar, viu no chão, atirada por baixo da porta, a Gazeta de Notícias."
(...)
"Acabou de vestir-se, escovou o chapéu com toda a paciência e cuidado, pô-lo na cabeça diante do espelho, e saiu. No fim do corredor, reparou que levava a Gazeta, para lê-la ao almoço, mas jáestava lida. Voltou, deitou a folha por baixo da porta do quarto e saiu à rua."Machado de Assis: O Caso Barreto (1892)
terça-feira, 26 de outubro de 2010
"Filosofia de um par de botas"
Olhando casualmente para as botas, entrei a considerar as vicissitudes humanas, e a conjeturar qual teria sido a vida daquele produto social. Eis senão quando, ouço um rumor de vozes surdas; em seguida, ouvi sílabas, palavras, frases, períodos; e não havendo ninguém, imaginei que era eu, que eu era ventríloquo; e já podem ver se fiquei consternado. Mas não, não era eu; eram as botas que falavam entre si, suspiravam e riam, mostrando em vez de dentes, umas pontas de tachas enferrujadas. Prestei o ouvido; eis o que diziam as botas:
Van Gogh / 1885BOTA ESQUERDA.- Ora, pois, mana, respiremos e filosofemos um pouco.
BOTA DIREITA.- Um pouco? Todo o resto da nossa vida, que não há de ser muito grande; mas enfim, algum descanso nos trouxe a velhice. Que destino! Uma praia! Lembras-te do tempo em que brilhávamos na vidraça da Rua do Ouvidor?
BOTA ESQUERDA.- Se me lembro! Quero até crer que éramos as mais bonitas de todas. Ao menos na elegância...
BOTA DIREITA.- Na elegância, ninguém nos vencia.
BOTA ESQUERDA.- Pois olha que havia muitas outras, e presumidas, sem contar aquelas botinas cor de chocolate... aquele par...
BOTA DIREITA.- O dos botões de madrepérola?
BOTA ESQUERDA.- Esse.
BOTA DIREITA.- O daquela viúva?
BOTA ESQUERDA.- O da viúva.
BOTA DIREITA.- Que tempo! Éramos novas, bonitas, asseadas; de quando em quando, uma passadela de pano de linho, que era uma consolação. No mais, plena ociosidade. Bom tempo, mana, bom tempo! Mas, bem dizem os homens: não há bem que dure, nem mal que se não acabe. (...)
(Machado de Assis: "Filosofia de um par de botas", publicado originalmente em O Cruzeiro, 23 de abril de 1878).
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
"Um botim sem misericórdia nem graxa"
Van Gogh pintou várias quadros retratando sapatos “sem misericórdia nem graxa”. Essa expressão aparece em uma das mais conhecidas obras de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicada em 1881. Não é signficativo, aliás, que as telas de Van Gogh tenham aparecido na mesma época em que Machado de Assis escrevia seu romance? A elegância por vezes se encontra onde menos a procuramos, e pode mesmo consistir na descrição do que mais dela se afasta. Essa passagem de Memórias Póstumas ilustra o que digo:
“Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia; o chapéu era contemporâneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes, — ou, literalmente, os ossos da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho; o pêlo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos botões restavam três. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, enquanto as bainhas eram roídas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho de oito dias. Creio que trazia também colete, um colete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.”
sábado, 2 de outubro de 2010
Machado de Assis e a Metafísica do Charuto
Getúlio Vargas "Depois da invenção do fumo não há solidão possível. É a melhor companhia deste mundo. Demais, o charuto é um verdadeiro Memento homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infalível de todas as coisas: é o aviso filosófico, é a sentença fúnebre que nos acompanha em toda a parte. Já é um grande progresso... Mas estou eu a aborrecer com uma dissertação tão pesada. Hão de desculpar... que foi descuido. Ora, a falar a verdade, eu já vou desconfiando; Vossa Excelência olha com olhos tão singulares..." (Machado de Assis)
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Machado de Assis e a Metafísica do Chapéu
“— A escolha do chapéu não é uma ação indiferente, como você pode supor; é regida por um princípio metafísico. Não cuide que quem compra um chapéu exerce uma ação voluntária e livre; a verdade é que obedece a um determinismo obscuro. A ilusão da liberdade existe arraigada nos compradores, e é mantida pelos chapeleiros que, ao verem um freguês ensaiar trinta ou quarenta chapéus, e sair sem comprar nenhum, imaginam que ele está procurando livremente uma combinação elegante. O princípio metafísico é este: — o chapéu é a integração do homem, um prolongamento da cabeça, um complemento decretado ab eterno ninguém o pode trocar sem mutilação. É uma questão profunda que ainda não ocorreu a ninguém. Os sábios têm estudado tudo desde o astro até o verme, ou, para exemplificar bibliograficamente, desde Laplace... Você nunca leu Laplace? desde Laplace e a Mecânica Celeste até Darwin e o seu curioso livro das Minhocas, e, entretanto, não se lembraram ainda de parar diante do chapéu e estudá-lo por todos os lados. Ninguém advertiu que há uma metafísica do chapéu. Talvez eu escreva uma memória a este respeito. São nove horas e três quartos; não tenho tempo de dizer mais nada; mas você reflita consigo, e verá... Quem sabe? pode ser até que nem mesmo o chapéu seja complemento do homem, mas o homem do chapéu...” (Machado de Assis).
domingo, 26 de setembro de 2010
Machado de Assis: Elegância na Belle Époque Carioca
artigo de Iesa Rodrigues publicado no JB / 18.06.1989
Esta, semana, no dia 29 de setembro, completam-se cento e dois anos da morte de Machado de Assis. O Bruxo do Cosme Velho - quase meu vizinho, aliás - morreu aos sessenta e nove anos deixando um legado repleto de referências à cultura da elegância clássica masculina. Por essa razão, e porque já se vão quase seis meses sem novas postagens por aqui, gostaria de reproduzir um pequeno ensaio de Iesa Rodrigues, publicado há já mais de vinte anos no falecido Jornal do Brasil. Achei o texto recentemente entre antigos recortes de jornais e imaginei que alguns leitores poderiam se interessar pelo texto. - Basta clicar sobre a imagem para ampliar o texto.
