domingo, 28 de março de 2010

Stylus et Caetera: um ano de postagens


Este blog completa hoje um ano de vida. A idéia inicial permanece a mesma: publicar imagens e informações relacionadas à cultura da elegância clássica masculina. O blog não é restritivo e se estende à discussão de tópicos tão diversos quanto alfaiataria, conservação de calçados, estética do vestuário clássico masculino, resenhas, história de determinados acessórios, etc. Já estão planejadas também novas postagens sobre guarda-chuvas, chapéus, calças, e uma diversidade de outros temas associados ao ideal da vida elegante. Embora alguns itens do guarda-roupa clássico masculino entrem em saiam de moda periodicamente, este blog, definitivamente, não é sobre moda masculina. – Sobre tendências da estação, cores da moda, grifes famosas, desfiles e outras aberrações aqui nada se falará.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Formas para conservação dos sapatos

Sapato com forma
Recentemente, na postagem sobre galochas, referi-me à cultura do desperdício que vai tornando quase tudo descartável, inclusive sapatos masculinos. Um autêntico sapato de couro custa, de fato, mais do que um similar de couro sintético. Mas se fizermos as contas na ponta do lápis, o sapato de couro acaba saindo mais em conta, pois costuma ter uma vida útil bem mais longa. Mas para que os sapatos possam realmente proporcionar longos anos de satisfação e elegância, é preciso tomar alguns cuidados.


Um ponto importante é não usar o mesmo par de sapatos todos os dias. A umidade que se acumula no interior dos sapatos precisa de algum tempo para ser completamente devolvida para o ambiente. O acúmulo da umidade no interior dos sapatos contribui para a gradual deterioração do couro. Por isso, é importante introduzir um esquema de rodízio entre os sapatos. Sapatos de qualidade exigem também a utilização de “formas”. Elas devem ser inseridas nos sapatos assim que eles são retirados dos pés. A forma impede que o couro vá se deformando lentamente enquanto o sapato não está em uso. Evidentemente, é preciso escolher o modelo de forma que melhor se adapta ao formato dos sapatos. O ideal é ter os sapatos à mão - ou nos pés - na hora de comprar a forma, para ter certeza de que ela tem o formato e o tamanho adequados. Algumas marcas costumam oferecer, para cada modelo e tamanho de sapato, a forma correspondente.

sábado, 20 de março de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (V)

Judeus com o tradicional "rekel"

Eu já havia dado como encerrada a série de postagens sobre abotoamento de paletós masculinos. Mas o tema é mais vasto do que se poderia supor à primeira vista. A idéia básica é que, na hora de abotoar, o lado esquerdo de um paletó masculino se sobrepõe ao lado direito. E isso vale também para sobretudos, túnicas, camisas sociais, etc. Algumas imagens apenas aparentemente sugerem uma exceção a essa regra. Isso ocorre quando elas são publicadas de modo invertido por engano, ou quando a imagem em questão é um auto-retrato. Mas há uma verdadeira exceção à regra: o Rekel - um tipo de jaquetão longo usado por ortodoxos judeus. O abotoamento do Rekel, na verdade, segue um padrão tradicionalmente considerado próprio para roupas femininas, ou seja: direito sobre esquerdo. Mas isso está inteiramente de acordo com as regras que tratam do uso de trajes masculinos na cultura judaica.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Um chato de galochas (II)


galochas da marca Tingley

Não há nada de errado em ser um chato de galochas, contanto, é claro, que você possa manter secos seus sapatos mesmo sob um forte temporal. As galochas antigas costumavam ser mais volumosas, e já vão algumas décadas elas caíram em esquecimento. Mas não devem ter sido apenas razões estéticas que contribuíram para o gradual declínio das galochas. A cultura do desperdício tornou os sapatos itens praticamente descartáveis. Por isso, poucos homens ainda têm o hábito de manter seus sapatos em bom estado por anos a fio, como se fazia antigamente, até que eles adquiram a pátina característica do couro envelhecido.



John Lobb: galochas para modelos específicos

Contudo, a utilização de materiais mais finos e flexíveis na confecção de galochas, aliada a uma gradual reação à cultura do desperdício, vêm contribuindo para o retorno desse velho item do guarda-roupa clássico masculino. Algumas marcas, inclusive, como a renomada inglesa John Lobb, possuem galochas específicas para alguns de seus modelos de sapatos mais nobres.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Um chato de galochas (I)

Van Gogh / agosto de 1888

Após alguns dias de intenso calor, as águas de março, fechando agora o verão, têm causado danos por toda parte. Inclusive em alguns sapatos. Para sapatos com solado de couro a água em excesso pode ser realmente um problema. Sob hipótese alguma use um secador de cabelos, nem coloque os sapatos em locais quentes como radiadores de geladeira, ou aquecedores para secarem mais rapidamente. Esse procedimento com certeza tornará o couro quebradiço e enrugado, danificando os sapatos de modo irreversível. O ideal é retirar os cadarços e encher o sapato de jornal ou, melhor ainda, papel absorvente. O importante é que os sapatos sequem naturalmente em local arejado. Virar o sapato de lado, com a sola do sapato numa posição perpendicular ao chão, promove a circulação de ar e a remoção da umidade. Se for necessário, retire o papel e repita o procedimento até os sapatos ficarem completamente secos.


Anúncio antigo de galochas

Uma maneira de prevenir, ou pelo menos de amenizar o problema dos sapatos molhados consiste em recorrer às velhas e já esquecidas... galochas. De onde vem a expressão “um chato de galocha” não se sabe ao certo, mas ela deve ter contribuído para que as pessoas gradualmente deixassem de levar a sério esse item de qualquer guarda-roupa civilizado. As galochas antigas costumavam ser, de fato, um pouco grandes e pesadas. Mas hoje em dia é possível encontrar algumas bem mais elegantes. Retornarei ao tema na próxima postagem...

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ombros do paletó: diferentes modelos



Uma das características mais distintivas de um paletó é o formato dos ombros. Os modelos acima não são os únicos e cada casa de alfaiataria, ou cada marca de terno, acaba adotando um estilo peculiar a partir de algum desses modelos gerais. Mesmo um modelo específico como, por exemplo, o “pagoda” – uma referência a um tipo especial de construção na arquitetura japonesa – pode ser mais ou menos côncavo; o ombro alto pode conter mais ou menos enchimento, etc. Algumas medidas de um paletó podem ser alteradas. Na verdade, um paletó feito sob medida é cortado de maneira a poder acomodar pequenas alterações caso a pessoa venha a ganhar ou perder peso. Mas as medidas dos ombros não podem ser alteradas com facilidade. Por essa razão, ao optar por um paletó comprado pronto, tenha atenção especial às dimensões do ombro.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Seersucker suit: o terno de anarruga

Terno de anarruga

O calor pode ter recrudescido um pouco neste final de fevereiro, mas a questão sobre as roupas mais adequadas para serem utilizadas durante os dias mais quentes do ano, sobretudo entre os homens que costumam vestir ternos por razões profissionais, permanece. Durante o verão, além do paletó sem forro, como sugeri em uma postagem anterior, há ainda uma outra alternativa ao terno convencional de lã, a saber: o terno de anarruga. Em inglês ele é conhecido como seersucker suit.


A superfície ondulada promove a transpiração

Anarruga é um tipo de tecido de algodão que apresenta uma textura enrugada. São as as ondulações sobre sua superfície que tornam o tecido de anarruga especialmente apropriado aos dias mais quentes e úmidos do ano, pois elas permitem a circulação de ar sob a roupa, promovendo assim a transpiração e amenizando a sensação de calor.


Senadores americanos posando para o seersucker day / junho 2006

O seersucker suit é, na verdade, um ícone do guarda roupa masculino americano. Assim como os advogados do Rio de Janeiro, os congressistas americanos às vezes sofrem durante o verão. No entanto, ao invés de pleitearem o uso facultativo do terno durante esse período, eles propuseram há alguns anos uma solução a meu ver bem mais elegante: a instituição do seersucker day. Na última quinta-feira de junho, que coincide com o início do verão no hemisfério norte, os senadores são encorajados a vestirem o tradicional terno de anarruga.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (IV)


Van Gogh / auto-retrato / 1889

Van Gogh / auto-retrato / 1889 também

Há poucos dias, na postagem sobre fotos antigas, referi-me à observação do abotoamento dos paletós masculinos como um critério para sabermos se uma imagem não teria sido equivocadamente publicada de modo invertido. Há pelo menos uma ocasião, no entanto, em que uma imagem pode aparecer, sim, de modo invertido, sem que isso resulte de um erro de publicação, a saber: quando a imagem em questão é um auto-retrato.


Detalhe da imagem anterior

Nas pinturas de Van Gogh acima, tem-se à primeira vista a impressão de que as imagens foram invertidas por engano, ou que o famoso pintor, na pobreza, tinha de recorrer a roupas femininas por falta de opção, pois os botões aparecem do lado direito, com a parte direita da roupa se sobrepondo à parte esquerda. Mas é claro que essa impressão é ilusória. Um auto-retrato é feito diante do espelho, por essa razão a imagem retratada sobre a tela aparece literalmente "espelhada", isto é invertida. As roupas de Van Gogh, apesar de rotas, eram como deviam ser - elas seguiam o abotoamento tradicional dos paletós masculinos.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (III)

Marlene Dietrich


Famosa sósia de Marlene Dietrich

O modo de abotoamento do paletó – lado esquerdo sobre direito, ou lado direito sobre esquerdo – é tão distintivo da diferença entre paletós masculinos e femininos que algumas mulheres preferiram não negligenciar esse detalhe, mesmo quando vestindo roupas em tudo mais inteiramente masculinas.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Abotoamento de paletós masculinos (II)


esq. Errol Flynn, The Sea Hawk (1940)
dir. John Neville, The Adventures of Baron Munchausen (1988)

Não importa se você veste uma casaca de pirata, uma camisa social, um sobretudo, um colete, ou paletó, a forma de abotoamento permanece a mesma: o lado esquerdo se sobrepõe ao lado direito, onde se encontram os botões. Com as roupas femininas dá-se justamente o inverso. Segundo a lenda, a origem do abotoamento de roupas masculinas se deve ao hábito de carregar espadas do lado esquerdo. Como a maior parte dos homens são destros, a espada era carregada do lado esquerdo para que se pudesse retirá-la rapidamente com a mão direita. Se a casaca de um espadachim fosse abotoada como se abotoam hoje em dia roupas femininas, havia então o risco de que o cabo de sua espada ficasse preso em sua roupa quando a lâmina fosse desembainhada às pressas. A falta de atenção para esse detalhe de sua roupa, como se pode imaginar, poderia muito bem lhe custar a própria vida. Ocorre, porém, que há séculos os homens não andam mais por aí carregando espadas. Se isso é assim, então por que o modo de abotoamento dos paletós masculinos não variou com o tempo e ao sabor da moda, da mesma forma que outras características das roupas que vestimos?


Humphrey Bogart no filme Kid Galahad (1937)

A razão para a permanência do modo de abotoamento de roupas masculinas, a meu ver, é que os séculos passaram, mas a maior parte dos homens continua destra e precavida. Os homens deixaram de carregar espadas porque passaram a portar outras armas – não menos letais. Se alguém tiver de esconder uma pistola sob o paletó, será mais fácil sacá-la rapidamente, sem ter de perder tempo com botões, se a parte esquerda do paletó recobrir a parte direita. Bem, é verdade, por outro lado, que o número de pessoas circulando pela cidade com uma arma escondida sob o paletó deve ter diminuído com o tempo. Mas as pessoas continuaram indo ao cinema, e cenas como a de Humphrey Bogart na foto acima, presentes em tantos outros filmes, devem ter sido retidas inconscientemente na memória de muitos homens como uma indicação de que o abotoamento do paletó masculino não pode ser de outro modo - pelo menos não sem que corramos risco de vida. O abotoamento tradicional, dessa forma, funciona como uma espécie de alusão inconsciente à idéia de poder e masculinidade evocada pelo uso de espadas e pistolas.

(Este artigo foi originalmente publicado na revista Tendencia, setembro de 2009).